ORecorte

Espaço destinado a pequenas observações mundanas, reflexões um tanto quanto sérias (?!), outras insanas, retóricas e divagações teórico/práticas, de Freud a Lacan, de onze às duas. O que será dito aqui pode ser absurdamente verídico, como, também, pode não ser. Porque o todo, dizem, é um complexo da soma das partes. Então, vamos de ORecorte.

Sunday, April 24, 2011

Programação (a)normal

Aos poucos, retomando ORecorte...

Wednesday, November 04, 2009

Persicolatria, a Série

(paciente): Doutor, seguinte: estou confuso, preocupado...
(persi): Puxa, meu crisântemo, assim, na lata? Que transferência mega-power essa a sua!!!
(paciente): Crisântemo? Transferência? Hum?
(persi): Aaaai, nada meu patinho no tucupi, nada. É porque essa é sua primeira sessão comigo, e você já chega assim, no auge, no clímax, um samba enredo campeão na minha escola de samba, uma florzinha pronta para desbrochar...
(paciente, cortando o persi): Ah, enfim, quanta esquisitice. Na verdade procurei o senhor..
(persi, cortando o paciente e querendo tomar as rédeas): senhor não, doctor, sou um doctorzinho muito do sério, muito renomado, muito sapiente das sapiências dessa vida maluquinha. Doctor...
(paciente): Ah, tá bom, Doutor. Estou angustiado porque estou apaixonado...
(persi, inxerido): Apaixonado?? Jura?? Swear para mim???? Mas que liiiiiiiiindooooooo!!! Por quem? Posso saber???
(paciente): Pois é, doutor Persi, apaixonado, completamente entregue.. Mas o problema é esse...
(persi): Que ganho meu louquinho de hoje!!! Paixão é coisa boa, é coisa fluente, é um 'river' que rola lá no interior das bandas do Mato Grosso, é cult!
(paciente): O problema, doutor, é o por quem...
(persi): Fala logo, criatura, solta esse verbo, solta esse fogo meu dragãozinho, meu Diamar, minha Caverninha do Dragão, deixa esse recalcado fluir logo, vem recalquezinho, vem para o papai vem...
(paciente): Estou apaixonado por uma coisa, Persi.
(persi, com ar de desapontamento, pois não iria mais unir dois corações): Hum?
(paciente): É... Não por uma pessoa, mas uma coisa. Isto. Uma coisa.
(persi): Coisa?
(paciente): Sim.
(persi): Coisa coisa ou uma coisa meio que coisa?
(paciente): Coisa.
(persi): Pontuda?
(paciente): Não, não.
(persi): Peluda?
(paciente): Hum?
(persi): Que quebra?
(paciente, angustiado): Olha só, doutor, me apaixonei... que vergonha..
(persi): Fala agora minha criatura divina, meu cabernet sauvignon, fala aqui para o seu GRANDE doutorzinho nas causas e emoções 'písicas', fala para mim fala, reverbera esse Id todo aí de dentro, grunge para mim, rruuaaaaaahhhh...
(paciente): Bom, enfim, tá me matando isto, vou falar. Estou apaixonado pela caixa de Correios da minha rua...
(persi, já com taquicardia): Heeeeein????? Como é??? Pela caixa de correios???? Jeeeeesuuus!!! Mas por que não pela persiana da sala, pelo criado mudo do quarto, logo pela caixa de correios????
(paciente): Pois é, pois é, pronto, falei. É isso mesmo. Toda vez que eu vejo a caixa, meu coração palpita, sinto um lance assim estranho, quero beijá-la, fazer carinho nela, levá-la para casa...
(persi): Ai, mas que máxima loucura!! Que manjar delicioso! Que achado mais trunch-trunch, mais que demais. Quero te estudar! Posso?
(paciente): Me estudar??? Mas você não vai me curar? Quero ser curado.
(persi): Te prometo a cura. A cura está prometida. Nem que eu leve sete dias para fazer sua cura, e no sétimo dia eu descanso. Me deixa te estudar, deixa??? É um achado tão glorioso, meu quindim, posso??
(paciente): Bom, vc me curará?
(persi): Lóóóóóóógico, viiiida! Te curo agora.
(paciente): Agora?
(persi): É, agorinha, wrigth nooooow. Quer uma cura, quer?
(paciente): Tá bom, tá bom, eu topo.
(persi): Vou te 'popotizar' (Nota do Editor: hipnotizar) tá?
(paciente): Hein?
(persi): Não se preocupa meu pomar de aroeiras, eu te popotizo e você se cura, rapidinho assim, igual a um trem bala que liga minha linda London 'às 'Europa', topa?
(paciente): Vou melhorar?
(persi): Meu lindinho Graal, meu cheirinho de nenê, te garanto que não gostarás mais da caixa de correios, terminarás com ela rapidinho, hoje ainda...
(paciente): Bom, se me dá esta certeza, então eu topo...
(persi): Agora, meu crustáceo, minhas vias aéreas, meu xilema, só tem uma coisa: você deixará de gostar da caixa, mas terá que gostar de outra coisa. É preciso repassar esse sentimento lindo seu chamado amor, ele não pode se perder...
(paciente): Uai, espera aí, repassar?? Como assim? Vou passar a gostar de outra coisa então??
(persi): Isto mesmo lindo! O amor não cessa nunca, não tem como a 'pinose' eliminar o amor, o amor está no seu coração, alma, ele guia tua vida, teus caminhos, ele...
(paciente, impaciente): Ah, tá bom, quanto papo furado, tá bom. 'Pnotiza' eu.
(persi): Agora um último porém, meu Confúcio brasileiro. Fiz o curso de 'Pnose' até a metade, assim, só sei te deixar apaixonado pelo papel higiênico.
(paciente): Hein???? Mas o quê??? Tá maluco???
(persi): Curso muuuuuito, muito, caro, a 'pnose' é carinha. Assim não consegui chegar até o nível 'transferir amor para pessoas'. Mas consegui terminar o 'transferir amor para papéis higiênicos'. Fiquei de recuperação mas ainda sim fechei, fui guerreiro, lutei até o final!
(paciente): Então eu passarei a amar papel higiênico, é isso?????
(persi): Isto minha chacrete, isto mesmo! Terás que dar uma intensa vazão à sua fase anal para isso, hahahaha!! Entendeu? hahaha. Nooooossa, hoje estou deeeeeemaaaaaaissss!!!!
(paciente): Putz, nao entendi nada... E quer saber, não quero.
(persi): Aaaaaaaaaaiiiiiiiii, nãão????? Por que??????
(paciente, levantando-se para ir embora): Não aguentarei ver meu amor sendo usado assim pelos outros e depois jogado fora, terei que comprar todos os papéis higiênicos do Mundo para salvar meu amor, para vê-lo limpo e feliz, puro... Não aguento esta promiscuidade...
(persi, tentando segurar o paciente): Mas é só papel higiênico, meu Dallas Cowboy...
(paciente, saindo do consultório quase aos prantos): Não dá, não dá mesmo, voltarei para meu amor antigo, minha caixa de correios. Por onde andei com a cabeça querendo me separar dela??!!
(persi, refletindo sozinho após a saída do paciente): É, meu instinto freudiano mais primitivinho diz que eu mandei bem hoje, fiz o amor renascer nos olhos daquele coração partido. Nossa, aliás, ele se esqueceu de me pagar!! Vou ligar e pedir para ele me mandar um cheque, pelos correios...

Thursday, October 08, 2009

Definições e suas definiçoes - Parte I

- Defina-me o incompreensível.
- Hein?
- Defina-me o incompreensível.
- Bom... É algo que ninguém compreende.
- Como?
- Isso mesmo, uai, é qualquer coisa que ninguém compreende. Daí o nome.
- Hum... Vem cá.... Quem avalia que não dá para compreender?
- Quem? Ué, qualquer um...
- Mas como esse qualquer um sabe que não é compreensível?
- Hein?
- Se ele julga que não é compreensível, como ele sabe que não é compreensível, o que ele faz para saber?
- Ah sim! Simples, cara: ele não encontra nenhuma razão, nenhum motivo, nada que justifique aquilo. Por isso ele classifica como incompreensível.
- Hum... Sério???
- É.
- Estranho... O que ele, então, não consegue explicar, digamos assim, ele não consegue dar uma razão, sei lá, a pessoa classifica como incompreensível?
- Bom.. É.. A grosso modo é...
- Mas julgar como incompreensível já não é uma tentativa de compreender isso? De compreender isso que ele não sabe, compreender o incompreensível??
- Mas ele não compreende aquilo, ele apenas classifica como algo que ele não entende, daí o valor incompreensível da coisa, sacou? É como se ele não se envolvesse naquilo, por isso não compreende...
- Opa.
- O que foi?
- Mas um cara que tem um sentimento por alguém, que ele sabe o que significa esse sentimento para ele, por que razão ele pode tentar ignorar isso e classificar como incompreensível? Ou mesmo se a pessoa a qual ele gosta o nega, ele pode classificar como incompreensível essa atitude dela. É incompreensível por que essa pessoa não aceita?? É isso??
- Não não, você está confundindo... Aí não é incompreensão não, pelo contrário, ele compreende muito bem... Aí são outros fatores, como medo, angústia, dúvida, ansiedade, outra coisa...
- Hum....
- O que??
- Eu te amo.
- Hum? Como?
- Eu te amo.
- O que é isso, cara!?! Como assim??? Que papo é esse?
- É isso mesmo que você ouviu: te amo, te amo, te amo!
- Hum....
- O que foi?
- Nada...
- Fala.
- Sei lá, é que de repente fez sentido. Vamos ali, vamos tomar um café, vamos filosofar sobre a vida... Vem.

Thursday, October 01, 2009

Epistemologia da Coisa em Si - Parte XX

Normalmente convivo com você. Meu papel é mais super-egóico (para quem não teve aulas com o Persicólogo e não entende, é a funcionalidade do "freio de mão do carro") do que IDóico ("ah, se não existissem roupas nem cultura nem religiões..."). Algumas pessoas fazem tanta questão de conviver comigo, que até estranho. É uma necessidade, uma falta de vontade de ser, que realmente fico até incomodada. Tenho, por hábito, a mania de te levar sempre ao questionamento, para algumas pessoas, até sou inoportuna. Para outras, simplesmente não existo. Gosto dessas pessoas. Se bem que já salvei muita gente encafifando suas mentes, esfacelando, principalmente, o lado direito de seu cérebro. Ando notando que convivo muito, na verdade, com as emoções, três vivas ao meu sistema favorito, o límbico! Adoro ele. Pode até ser que eu resido ali. Pode ser que o lado esquerdo do cérebro me use mais. Romanticamente, torço para o lado direito! Racionalmente, pelo lado esquerdo. Não se preocupe em me entender, pois já convivemos antes, na sua vida. Já te acompanhei entusiasticamente. Como sou a dúvida, a única certeza que você tem é que nunca sabes se tomou a decisão mais correta na vida... Quando me apresentam, me introduzo como "e se..." Ou seja, uma das únicas certezas da sua vida, além dos impostos, sou eu, a dúvida...

Tuesday, September 29, 2009

Voltando à programação normal!

Depois de alguns meses comunicamos que ORecorte volta com sua programação normal.
Um patrocínio da Aguardente "Caia Já", a única de sentido duplo, ingerida durante as manifestações ocorridas em torno do Fernando Collor, aquele, nos idos de 1992....

Sunday, October 05, 2008

A tua cachaça, qual é?

Dia desses, dividido entre uma página em inglês me seduzindo para ser traduzida e uma cigarra cantadora no quintal que quase me fez cometer meu primeiro homicídio qualificado aqui no DF, me peguei pensando: qual seria minha cachaça? Pergunta estranha esta? Que nada...
Tem gente que a cachaça é trabalhar tudo o que pode, trabalhar até o último fio de cabelo, muitas vezes para esquecer (...), muitas vezes para enriquecer e, (rimas pobres à parte) também, para adoecer...
Outras pessoas têm como cachaça não ficar parado, praticar esportes, sair todos os dias, fazer 2, 3, 9 coisas ao mesmo tempo, dividir a atenção em incontáveis estímulos concorrentes. Não podem ter tempo para si. Para muitas outras, a cachaça é o pó branco, que o digam os professores e os 'profissionais' da cocaína...Noutros, a cachaça está em prevalecer sobre tudo, em querer levar vantagem de tudo, assim como para outros cuja cachaça é vencer o outro. Não vivem sem isso.
Muitos outros acham que sua cachaça é amar. Sem medida. Não conseguem parar, não medem consequência. Todo dia estão lá, amando. Mas esse amor não é só um amor sexual, mas um amor incondicional, que até ultrapassaria o físico. Amar uma ausência, por exemplo. Amar o impossível. Amar a lembrança daquilo que poderia ter sido, se tivesse feito. Ou amar a amarga lembrança de ter feito aquilo que não deveria ter sido feito, e que hoje a cachaça consiste, exatamente, em arrepender. Tem gente que se amarra na cachaça de se arrepender, de ter feito e de não ter feito.
Outras cachaças que tem gente viciado: cachaça intelectual, cachaça sexual, cachaça política, cachaça emocional... A cachaça é o que move cada um de nós?
Uma coisa é certa, e esse é o problema da cachaça: dá ressaca.
Mas o pior disso tudo é constatar que: ressaca passa...

Sunday, August 17, 2008

Epistemologia da coisa em si, Parte XIX

Eu te perturbo. Vivo lado a lado com você, diuturnamente. Por vezes vejo você tentando me evitar, há pessoas que vivem todo segundo da sua vida locupretando-se para não se encontrarem comigo. Planejam-se, esmeram-se, gastam toda a energia opondo-se ao meu encontro. Gosto disso, roubo a cena quando apareço. Sou capaz de dinamitar sua vida. Pessoal, profissional, e qualquer outra esfera imaginável. Eu te persigo. Quando te encontro posso te representar possibilidades incríveis, mas que normalmente você não percebe, pois está muito preocupado(a) em tentar encontrar uma vacina que cure o efeito da minha ação.
Curiosamente tem gente que insiste em me procurar, não me dá sossego, não consigo relaxar, veja só!? Tem gente que me procura esporadicamente mas, também curiosamente, me procuram com intenção, com uma motivação por trás. Às vezes mascado o medo, a apatia, a inércia ou inoperância.
Às vezes mascaro a inveja, mascaro o ciúme ou mesmo a incompetência, mas não uma incompetência de não-saber, mas sim uma incompetência de não-querer, de viver pela destruição de outrem, coisa ou pessoa... Louco isso, não? Fatalmente vamos nos topar. E quando isso acontecer saiba que, como sou o erro, posso representar tudo aquilo que a perdição pode lhe trazer, ou mesmo, se você souber o que fazer comigo, posso ser o início da tua redenção...