Fenomenologia da coisa em si - Parte IV
Olha, você diz que não, mas quando eu apareço, você tem reações um tanto quanto anormais. Uma vezes você se mata de vergonha, noutras chora, como criança, de emoção, seja alegria ou tristeza. O mais inesquecível, tanto para mim quanto para você, é que você se importa com a minha presença. E muito. E tento sempre fazer o melhor para tentar tornar sua vida a menos normal possível.
Você, num almoço de negócios, deixa cair uma bela garfada de macarronada em seu terno. Você não tem lugar. Sua em bicas, fica vermelho, quer estar a, pelo menos, 1000 km dali. O que me dizer então quando você tropeça na rua? Escorrega e cai? Ou quando a braguilha de sua calça está aberta e você é avisado sobre isso (quando é avisado...), como você reage? Uma remela visível nos olhos, um espirro em que sai muito mais do que você imaginava pelo nariz, ou mesmo quando você perde a voz em algum evento importante de sua vida. Quando sua calça rasga no meio da rua, quando um pombo caga na sua roupa e/ou cabeça, quando você estende a mão e a outra pessoa não percebe, e você lá, com a mão estendida... Que tipo de reação você tem? O mais engraçado é que se passam os anos e você não se esquece dessas situações que eu te proporcionei...E lembra até com doces risadas...
Ou em outros eventos tão importantes quanto. Um amor te aparece, do nada. Te rouba o ar, te rouba os sentidos, ou tudo passa a fazer sentido, a partir daquele momento... Uma alegria, um amigo de 20 anos atrás que você encontra no meio de um shopping center perdido em pleno Centro - Oeste, ou mesmo uma música que, com sua melodia assaz cortante, te traz recordações que você adoraria nunca ter esquecido...E, também, apareço em momentos de provação para você. Te levo um parente querido, um amigo, uma paixão. Sou capaz de te deixar muito triste e sofrendo por demais, por uns dias, meses, ou até anos, mas eu apareço exatamente para isso, mesmo que seja uma situação incômoda para mim: apareço em sua vida para tentar te mostrar que tudo aquilo que lhe foge à normalidade deve ser, por ti, resguardado. Nunca camuflado. Nunca relegado. Porque, talvez, uma das poucas coisas para as quais eu sirvo é exatamente isso: para tentar fazer com que as coisas passem a fazer sentido para você, mesmo os pequenos momentos, anormais. Porque são estes pequenos momentos que te fazem reagir à indiferença dos Outros, os olhares julgadores, inertes à sua postura, aos seus desejos.... Por tudo isto que eu sou o "inusitado"...

3 Comments:
E não é que o inusitado, ainda assim, tem o seu encanto?
Qualquer hora quero ler as outras três partes dessa Fenomenologia... Aliás, esse nome me lembrou meu primeiro período de faculdade... Kelsen... Inusitado.
Gostei muito do texto. Um tanto inusitado. Mais do que esse comentário.
a propósito, porque o seguimento da série "Fenomenologia da coisa em si" abandonou o formato numérico tradicional (1, 2, 3) para utilizar o romano (IV)? inusitado, não? qual o fundo emocional desta troca?
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