ORecorte

Espaço destinado a pequenas observações mundanas, reflexões um tanto quanto sérias (?!), outras insanas, retóricas e divagações teórico/práticas, de Freud a Lacan, de onze às duas. O que será dito aqui pode ser absurdamente verídico, como, também, pode não ser. Porque o todo, dizem, é um complexo da soma das partes. Então, vamos de ORecorte.

Friday, March 10, 2006

Persicolatria, a Série: "O dia em que a histeria se modernizou..."

Naquela terça-feira à tarde, enquanto lixava suas unhas impecavelmente cuidadas (afinal, metrossexual assumido, o persicoólatra queria agora ser huberssexual, seja lá o que isso signifique.. extravagâncias deste maloqueiro psi, ops, persi), adentra, sem chão e esbaforida, uma jovem em seu consultório:
- (Ela): Doutor, preciso falar com o senhor, e é urgente...
- (Ele): O que isso?! Mas pra quê toda essa pressa, o que que tá acontecendo minha star?? Te conheço?? Você é uma das minhas estrelas??
- (Ela): É sério, doutor, tem que ser agora...Não sou sua cliente, mas como o seu consultório é o mais próximo, e fica aqui ao lado do cabelereiro, você foi o primeiro que eu pensei em me ajudar...
- (Ele, farejando uma nova cliente, ou estrela, segundo ele): Pera lá, então eu vou ter que desmarcar uma linda consulta que eu tinha para agora, sossega aí, descansa, tente fazer vibrações positivas para você mesmo enquanto isso, se motiva, e espera aí, tá?!
O persicoólatra sai de sua sala e instrui sua secretária a remarcar a próxima consulta, que era de sua cliente mais antiga, Cretinice (sim, este era seu nome!), para mais tarde. Afinal, "o édipo dela já tava na adolescência e pronto para conhecer umas gatinhas, já estava esquecendo a mãezinha dele", diagnosticava ele.
De volta à sala:
- (Ele): Pronto, sossego, vamos começar, o que acontece?
- (Ela): Doutor, fiquei no computador nesta madrugada quase inteira e hoje, quando acordei, meus dedos e mãos não mais estavam agindo, estavam como mortos, sem força, nem nada! Que desespero, doutor, veja como tá (ela mostrando os dedos inertes de suas mãos para ele)
- (Ele, pensando): Caramba?! Sério mesmo?!
- (Ela): Mas é claro que é, doutor, minhas mãos estão dormentes, sei lá o que que é isso, isso nunca me aconteceu antes...
-(Ele, já enquadrando sua nova cliente): Sei, sei, mas me diga, bundinha de bebê, você tava fazendo o que no computador? Até de madrugada?
-(Ela): Ah, eu tava olhando coisas na internet, doutor, vendo emails, coisas de fofoca, bate papo, minha página no orkut, essas coisas...
-(Ele, quase fechando o diagnótico): Or o que? Cut? Mas teve alguma coisa diferente que você viu, algo que fez você subir pelas tamancas, algo estranho, sei lá, que te deixou com raiva, algo que te emocionou, não sei...
-(Ela): Nada, doutor, nadinha...
-(Ele, que conhece como ninguém a negação): Será que não tem nada mesmo, alguma coisa diferente que você viu, ou leu, ou que alguém te falou?? Linda, aqui você comanda o show, aqui você tem que falar para mim todas as coisinhas que te acontecem, isso ajuda no tratamento...
-(Ela): Tratamento?? Tá maluco, doutor?! Tratamento de que?? Vc acha que eu tô maluca? Tratamento de que??
- (Ele, enquadrando-a de vez): Coração, você é histérica, você teve um negócio chamado de paralisia, sua histeria te paralisou as mãos, sabia?
-(Ela, plenamente assustada): O quê?? Tá maluco, doutor?!?! Cê tá maluco?? Não sou histérica coisíssima nenhuma, tá louco você...
-(Ele, mais humanista): Meu caju, você tá com um negócio que muitas outras pessoas tiveram, esse negócio de histeria até o meu Freud já tinha falado, ele mesmo teve umas estrelas, umas mulheres da antiga mesmo, tinha umas Elisabeth, Emmy, Lucy, todas lindinhas histéricas, acho até que meu Freud fez algo a mais com elas, entende??!! lindinhas, mas histéricas doidinhas...
-(Ela): Não sou doidinha, doutor, que coisa estranha!! Que maluquice, é sério mesmo, doutor?? Que faço??
-(Ele): Sim, carnuda, mais sério do que uma escova de cabelo mal feita...
-(Ela): Minha mãos ficaram dormentes então pq tive esse troço de histeria, que estranho, muito estranho...Mas tem cura, doutor?
-(Ele): Mas é aí que eu entro, star! Você virá aqui para eu tratar de você! Eu fiz minha faculdade para te ajudar, ajudar sua aura, ajudar a chutar essa histeria sua pra lá, bem longe...
-(Ela): É...mais um gasto para mim... Chato, sô... Mas eu vou ter que falar com a Mona, eu tenho que me curar...
-(Ele): Falar com quem, minha abre-alas??
-(Ela, em atitude franca): Mona, ela é minha mulher...Moramos juntos, doutor...E ela controla as contas da casa, inclusive quanto tempo fico na internet...Aliás, falando nela, eu só sai da net ontem pq vi no orkut dela que tem um tal de Franaquildo trocando recadinhos com ela, fiquei puta da vida com esse vadio...Será que ela me controla para que eu não descobrisse nada dela?

Esboçando um sorrisinho maroto na boca, o persicoólatra concluiria que a histeria ainda estava viva, mesmo por causa desse tal de orkut aí que ele nunca tinha ouvido falar...Iria estudar nos seus clássicos...Seria ele o outro dela??

0 Comments:

Post a Comment

<< Home